Treinamento auditivo: otimizando os benefícios do AASI e IC!

Ouvimos com o cérebro?
É muito comum que logo após adaptação dos AASIS ou ativação do IC, junto com a maravilhosa sensação de ouvir novamente, os usuários estranhem ou até mesmo apresentem dificuldades em se acostumar com o novo mundo sonoro. Sons que não eram mais ouvidos, agora parecem altos demais, sons que eram percebidos de uma certa maneira, agora parecem distorcidos: a voz da amiga ficou mais fina, o latido do cachorro ficou super estridente, o telefone abafado, e outras tantas mudanças e sensações! Isso acontece, pois não ouvimos com a orelha somente, ouvimos com o cérebro também!

headphones brain

O AASI e o IC atuam inicialmente no problema que ocorre na orelha média e/ou na orelha interna, eles fazem o papel de amplificadores do som, de forma que o som que não era mais detectado, ou que precisava de muita intensidade (volume) para isto, passa a ser ouvido. Assim é resolvido o problema da quantidade de som que chega ao cérebro, mas e a qualidade?

A compreensão e interpretação do som (qualidade), quem faz é o Processamento Auditivo! Vamos conhecer melhor como tudo acontece:

Audição e Processamento Auditivo
Somos feitos para ouvir desde o quinto mês de gestação. A audição é um dos sentidos que se desenvolve aos poucos, principalmente nos primeiros anos de vida. O som, para ser compreendido, deve entrar por nossas orelhas e ser traduzido pelo nosso cérebro. Nesse caminho, o estímulo sonoro é transformado (pela cóclea ou IC) em impulso elétrico, que é a linguagem que o cérebro compreende. Esse sinal elétrico é processado pelos neurônios da via auditiva, que estão em diferentes regiões do Sistema Nervoso Central.

Para processar o som são necessárias diferentes habilidades auditivas que são responsáveis pela nossa capacidade de localizar e memorizar os sons, discriminar diferentes tipos de som (agudo, grave), entender em ambientes ruidosos (como em festas, restaurantes), entre outras habilidades.

Deficiência Auditiva e Processamento Auditivo
As habilidades auditivas podem estar alteradas em pessoas com a audição normal e de todas as idades, sendo mais comum a detecção na fase escolar, devido às dificuldades de aprendizagem que podem surgir com a alteração do processamento auditivo.

Em indivíduos com perda auditiva, um pior desempenho de uma ou mais habilidades auditivas é quase sempre encontrado, e você logo irá entender o porquê:

Inúmeras pesquisas científicas procuram investigar e explicar as razões que levam os indivíduos com perda auditiva apresentarem maior dificuldade de entender a fala em ambientes ruidosos, discriminar os sons da fala entre outras queixas comuns, mesmo após a reabilitação com AASI ou IC. Mas, para simplificar, vamos fazer uma comparação com carros e as péssimas estradas do Brasil:

Imagine uma estrada novinha, recém inaugurada, lisinha, sem nenhum buraco ou desnível, pronta para os carros correrem livremente em direção ao destino final. Uma maravilha, não é? A partir de agora, vamos supor que essa estrada é a sua via auditiva, pronta para receber os carros, que no caso da audição, correspondem aos estímulos auditivos. O destino final é o córtex cerebral auditivo, onde os sons serão interpretados e compreendidos.

Caso você tenha nascido ou desenvolvido uma perda auditiva, poucos carros (som) ou nenhum deles passarão nesta estrada, pois serão bloqueados no pedágio (que podemos comparar com uma cóclea danificada, por exemplo). Sem carros transitando, com o tempo, a estrada ficará deserta, descuidada, a ação dos ventos e das chuvas criará buracos, mato crescerá no asfalto, tornando-a inadequada para a passagem livre e veloz dos carros. A estrada abandonada é a sua via auditiva se tornando cada vez mais “fraca” pela privação auditiva, ou seja, a falta de estimulação sonora adequada causada pela perda auditiva faz com que os neurônios responsáveis processamento e compreensão do som “atrofiem”. Por isso, é fundamental iniciar a adaptação do AASI ou realizar a cirurgia do IC assim que a perda auditiva é diagnosticada, para que não dê tempo do nervo auditivo e as demais estruturas do sistema auditivo sofrerem com a falta de estimulação sonora.

Certo, então ao colocar o AASI ou IC, a minha via auditiva levará o som em perfeito estado para o cérebro?

Vamos reformular a pergunta utilizando os carros e as estradas:

Certo, agora que comprei uma Ferrari vou conseguir correr na estrada e levar os doces, a tempo, na casa da vovó e em perfeito estado?

A resposta você já sabe: Depende de como está a estrada, muito ou pouco esburacada! Não adianta ter uma Ferrari se você só tem a oportunidade de andar em péssimas estradas, certo?

O estado da via auditiva até o córtex cerebral vai depender do tempo de privação auditiva (tempo que a pessoa ficou sem ouvir direito), causa da perda auditiva (otoesclerose, presbiacusia, neuropatia auditiva…) e outros fatores.

Treinamento Auditivo
Quando está via auditiva está muito prejudicada, mesmo após a adaptação dos AASI ou IC, os usuários podem apresentar muitas queixas, principalmente de compreensão da fala quando o interlocutor fala mais rápido, ou em ambientes ruidosos, pois as habilidades auditivas necessárias para uma boa compreensão nestas situações estão prejudicadas.

Nesses casos, o treinamento auditivo pode ser uma ótima opção para melhorar as habilidades auditivas e proporcionar maior capacidade de discriminação e compreensão da fala e consequentemente, uma melhor qualidade de vida aos usuários de AASI e IC. O treinamento auditivo baseia-se na capacidade do cérebro em se modificar mediante à uma estimulação intensa, a chamada neuroplasticidade.

brain-training

No treinamento auditivo, as habilidades auditivas são estimuladas por meio de exercícios auditivos que também envolvem atenção e memória, como discriminar sons de frequência e intensidades diferentes, prestar atenção na fala de uma pessoa enquanto ouve uma história na outra orelha, memorizar sons em sequências, entre tantos outros! A realização desses exercícios em uma certa frequência e por certo período de tempo é capaz de modificar as estruturas cerebrais, aumentando e fortalecendo as redes neurais responsáveis pelo processamento auditivo, resultando em uma audição mais eficiente e, é claro, melhorando a compreensão da fala!

É importante ressaltar que somente adaptação dos AASI e do IC já gera uma estimulação e “tratamento” daquela via auditiva abandonada. É como se os carros voltassem à estrada, trazendo mais movimento e vivacidade ao local. Por isso que, após um período de 3 meses em média, as queixas auditivas diminuem e a maioria dos usuários ficam bem adaptados.

O fonoaudiólogo responsável pela adaptação e acompanhamento dos seus ASSIs ou do IC provavelmente irá saber identificar se há indicação de treinamento auditivo para o seu caso.

O treinamento auditivo é realizado por fonoaudiólogos especializados, geralmente com o uso do audiômetro e cabine acústica, além de softwares desenvolvidos para esta finalidade.

A Siemens desenvolveu um software de treinamento auditivo chamado eARena para que os usuários de seus aparelhos auditivos pudessem treinar as habilidades auditivas em casa e otimizar o benefício dos ASSI, aumentando assim a satisfação de seus clientes. É um material muito interessante para complementar o trabalho fonoaudiológico.

Pela a quantidade de estudos, discussões em congressos e reuniões científicas acerca dos benefícios do treinamento auditivo para indivíduos com perda auditiva, acredito que esta poderosa ferramenta será cada vez mais frequente na prática da reabilitação auditiva no Brasil.

Bom, espero que esse longo texto tenha sido útil, informativo e suficientemente prazeroso para que tenham ânimo de ler mais nas próximas oportunidades!

 

Esse artigo já foi publicado no blog Crônicas da Surdez: Clique aqui para ler